Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

ÓCIO

Já diz o povo que “a preguiça é a mãe de todos os vícios”. Será?
Há na atualidade uma espécie de culto ao trabalho. Especialmente o trabalho remunerado. Pessoas adultas que não possuem um trabalho remunerado são vistas com maus olhos, e muitos aposentados e donas de casa sofrem bastante por não serem considerados trabalhadores. Têm receio de passarem por preguiçosos, e muitas vezes é assim que se sentem, porque estão fora do mercado de trabalho, caindo em depressão por sentirem-se inúteis, já que não se consideram produtivos.
Entretanto, o que de fato é ser produtivo? Dentre muitas sinonímias, o dicionário nos oferece a seguinte definição da palavra trabalho: “Aplicação das forças e faculdades humanas para alcançar um determinado fim.*” Significa que, mesmo sem receber um salário, algumas atividades podem ser consideradas trabalhos. O trabalho é, antes de mais nada, um processo transformador. E este processo não está sujeito, necessariamente, às imposições de uma instituição, de um emprego ou serviço remunerado. Há trabalhos de todos os tipos, dentro e fora dos lares, visíveis ou não.
Todavia, não é o que pensa a maioria das pessoas. E no temor de se tornarem ociosas, elas vêm trabalhando de uma forma autodestrutiva, ou seja, ultrapassando as possibilidades humanas, originando desgastes físicos e mentais incompatíveis com a boa saúde, adoecendo de tanto trabalhar.
Será que este tipo de trabalho desenfreado realmente enobrece o homem, como se costuma pensar? E que tipo de ociosidade é a mãe dos vícios? Pois nos parece haver um vício em trabalho cuja mãe não é a preguiça, mas a baixa auto-estima.
Pessoas que se consideram sem valor ficam tentando provar o tempo todo e por toda a vida a sua significância, e fazem isso através do trabalho que exercem. Querem ser vitais, essenciais, imprescindíveis. E se estressam na tentativa de serem para os outros aquilo que não são para si mesmas: importantes.
Na verdade estas pessoas estão doentes. Não são trabalhadores virtuosos, mas fogem do descanso como quem foge de um fantasma que, na calada da noite os ataca, mostrando o vazio em que vivem. Não é isso que lhes causa insônia?
Não que devamos enaltecer a preguiça. De forma alguma. Mas não fazer nada é algo muito raro, quiçá impossível. Pois mesmo parado, numa aparente ociosidade, a mente trabalha. Até dormindo nós sonhamos!
Os vícios nascem não da falta do que fazer, mas da não reflexão sobre o que fazer. E, muitas vezes, trabalhando, o homem vive irrefletidamente, sem objetivos, sem razões maiores, absolutamente sem sentido algum que motive sua existência. Daí surge um vazio, que não é um vazio proporcionado por falta de atividade, mas por falta de sentido.
Trabalhar é bom, inclusive o trabalho não remunerado. Movimentar os músculos, quando não o cérebro, tudo isso é necessário para não atrofiar. Mas descansar também. Parar de vez em quando com a mesma disciplina que se deve parar para comer, é também essencial. Nestas paradas é que surgem os insights, é que se olha para si, se reflete sobre os rumos tomados, se planejam novos rumos, ou simplesmente se desenvolve a arte de sonhar. O que temos feito desta arte? Onde estão os poetas, os filósofos, os pensadores? Que teria sido da humanidade não fossem eles?
Talvez a atual apologia ao trabalho ininterrupto seja uma conseqüência natural do momento histórico em que vivemos. A religião, que antes funcionava como mantenedora do sentido da vida, perdeu suas bases. As descobertas científicas, os avanços tecnológicos, e suas conseqüentes contribuições para a melhor qualidade da vida humana, arrefeceram o reinado do Deus imaterial, situado além das fronteiras da morte. O homem ousa pensar que pode ser feliz aqui e agora, não mais depois, no além, no mundo celestial.
Acontece que o mundo celestial é uma metáfora da vida interior, do reino do espírito ou, na linguagem filosófica, do imaginário. Ele existe antes da morte, dentro de nós mesmos, e não pode ser negado. Sua negação leva ao adoecimento, à pobreza interior, ao vazio emocional.O homem precisa viver um pouco o seu imaginário, seus devaneios, suas fantasias. Elas têm um valor de enriquecimento não material, mas espiritual. Elas, as imagens mentais, dão colorido às suas conquistas. Donde se conclui que um pouco de ociosidade faz bem. Não tanta que se esqueça de agir, mas também não tão pouca que se esqueça de sonhar...
*Novo Dicionário Aurélio.

2 comentários:

Tεrεzα gαmα disse...

Olá querida.

Adorei seu blog, e esse post em especial.
Olha, quero ler seu livro. Vou ser uma seguidora, sempre que puder vou estar aquí comentando no seu blog.
Um beijo.

Lila Rosana disse...

Amiga, adoro a sua maneira de escrever, é poética e envolvente.
Todas as postagens estão excelentes. Parabéns!

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