Estava acompanhando as notícias sobre a morte do astro pop Michael Jackson e, inevitavelmente, como a maior parte do mundo, fui tocada pela emoção. Emoção recheada de muitos sentimentos, especialmente a piedade.Mas piedade por quê? Um milionário, um marco na história da cultura mundial, o cantor que mais vendeu discos em todos os tempos, com direito a caixão banhado a ouro e a velório-show, que piedade pode provocar?
É incrível assistir sua dança original, a genialidade de suas coreografias, o perfeito controle do corpo na execução dos passos leves e rápidos, isto sem falar na música, na voz, na criatividade, no brilhantismo que o tornou uma estrela internacional.
Porém ao mesmo tempo, fora dos palcos, longe dos holofotes, o que encontramos? Um homem-menino, fruto de uma infância oprimida, explorada, abusada mesmo. Uma alma sensível como são as almas dos artistas, marcada pela mágoa da criança ferida, brincando de ser pai, como não pôde brincar quando foi simplesmente filho.
Visivelmente transtornado, o seu rosto transformou-se numa máscara, tantas as cirurgias que fez, provavelmente decorrentes de uma busca incessante da perfeição, talvez novas e inconscientes tentativas de agradar ao pai exigente, para então merecer a estima, o carinho, o amor.
Acusado de abuso sexual, sempre cercado de meninos, dormindo com eles, revelou-se uma personalidade excêntrica e incompreendida, motivo de indignação, reconhecimento, inveja, admiração, dúvida e piedade, hoje sobretudo piedade.
E o que causa piedade? Decerto o seu conflito humano, que na verdade é o nosso conflito humano, que cada um vive, com maior ou menor consciência, no seu contexto particular.
A piedade que sentimos por Michael Jackson é a que muitas vezes não nos permitimos sentir por nós mesmos, mas que existe.
Choramos por nossas ilusões, mortas com ele.
Ele chegou ao ponto que sonhamos e não encontrou o que esperamos encontrar.
Ao que tudo indica, não foi feliz. A prova é que tomava remédios para dormir, antidepressivos. Pois a felicidade não deveria dispensar estes artifícios?
Portanto, Michael Jackson foi a prova viva, agora morta, de que não é possível comprar a felicidade. De que é possível estar cercado de gente e sentir-se sozinho. De que nenhuma adulação pode nos convencer de que somos belos, se nos sentimos feios. De que nem mesmo nossos filhos podem preencher o vazio existencial. De que mesmo atingindo o ápice do que chamamos sucesso, é possível não ser bem-sucedido.
Talvez ele nos sirva de exemplo para pararmos de ficar procurando a felicidade na Terra do Nunca, e simplesmente olharmos para o que nos faz felizes exatamente agora. É possível que felicidade seja simplesmente um modo de ver o mundo...




