terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Vamos discutir a relação?


Vamos falar um pouco sobre a arte de dialogar. Mas não um diálogo qualquer. Falemos do diálogo difícil, quando se trata de falar e ouvir feedbacks por vezes desagradáveis. O famoso DR: Discutindo a Relação. Aquele tipo de conversa que coloca muitos casamentos e namoros em xeque, em que as pessoas se machucam, ofendem e são ofendidas.


Geralmente, numa relação de pares, quando um diz que quer conversar, não é bem o que deseja fazer. Quer na verdade acusar, falar, ser compreendido e não ouvir, principalmente não ouvir discordâncias. Este é o primeiro passo para o insucesso de um diálogo.

Quando você quiser conversar com alguém sobre algo que atrapalha sua relação com esta pessoa, primeiro se pergunte o que deseja com esta conversa. Deseja se vingar? Magoar? Provavelmente, você responderá que não. Mas existe um mecanismo chamado auto-engano, que não raro mobiliza esta resposta negativa, disfarçando a intenção má de boa, e fazendo você dizer: “Quero apenas chegar a um entendimento.”

Então, se é o que você afirma querer neste diálogo, investigue no que se pauta este entendimento. O que você considera um entendimento? Seria o outro concordar com você? Achar que você tem razão?

Se é, não converse agora. Espere um pouco mais. É importante que você se conscientize de que o outro vê o mundo de maneira diferente da sua, pois ele parte de uma outra perspectiva, que é aquela que resulta da experiência exclusiva dele.

O real entendimento se dá quando os dois se aproximam ao máximo da compreensão um do outro. Para isso acontecer, os dois tem que querer compreender.

Quando for dialogar, portanto, esteja disposto a falar e a escutar e, mais que tudo isso, a renunciar algumas decisões. Se você decidiu que o outro deve aprovar tudo o que você falar, já começou mal.

Relacionamento requer renúncias. São duas pessoas diferentes que se unem e precisam encaixar suas formas de ser, para viver em harmonia. Como duas peças de quebra-cabeças, que se completam, mas que são únicas, ninguém perde sua unidade porque casou. É preciso que se reconheça que são duas peças distintas, com pontos que não se encontram, e outros que se encaixam perfeitamente. O desafio é encontrar estes pontos de encaixe, e se abrir à possibilidade deles não existirem, sem que isso signifique que a outra peça seja um ser desprezível. Apenas não é o seu par. No quebra-cabeças do relacionamento afetivo, não existem peças piores ou melhores, somente peças que se encaixam ou não.

Mas digamos que você de fato acredita que encontrou a peça que se encaixa na sua vida. Bem, é importante que vocês dois saibam dialogar para manterem-se unidos.

Então, se você respeita a possibilidade do outro não ser igual a você, talvez esteja pronto para conversar com ele.

Agora, que você iniciou o diálogo, esteja atento a como fala com o parceiro. É interessante que você coloque para ele o seu ponto-de-vista como um ponto-de-vista, e não como A Verdade. Mesmo que lhe pareça inquestionável o que você tem a dizer, permita-se dar ao outro a liberdade de questionar. Procure falar sem acusar. Ao invés de dizer: “Você é...”, tente falar: “Quando você age assim eu me sinto...”

Perceba a diferença nas duas formas de se expressar. Uma julga, a outra se revela.

Converse com o parceiro para explicitar seu coração e saber o que se passa no dele, não para determinar por sua conta os próximos passos da relação, ou para dizer o que é certo, para dizer o que ele é ou deixa de ser.

Na relação não estamos para julgar um ao outro, mas para nos compreender. Para que o outro lhe compreenda é preciso que você se revele a ele. Do mesmo modo, é necessário que você o conheça, para então compreendê-lo.

Há pessoas que não dialogam e no relacionamento precisam ser “decifradas”. Pode parecer interessante, mas não é prático e acaba se tornando muito perigoso. Quando o outro tem que “deduzir” o que você quer ou deixa de querer com uma ou outra atitude, ele pode tirar conclusões bem distantes do que você espera.

Recordo a história de uma mulher que, no dia do divórcio, desabafou para o ex-marido: “Finalmente não vou mais comer a pizza de atum que você trazia às sextas.” Ele, chocado, retrucou: “Mas eu odiava pizza de atum e trazia apenas porque você adorava!”

Entendeu? Por falta de diálogo, ele deduziu que ela gostava e ela deduziu que ele gostava do que ambos detestavam.

Pense nisso e dialogue sempre que possível e – o que é mais importante – a dois.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

FELIZ ANO NOVO


Ano novo... Quase não dormi no dia da virada, com minha filha de dois anos tremendo de medo dos fogos de artifício. Porque os fogos começaram no final da tarde e se prolongaram para além da meia- noite. Então eu, deitada na caminha dela, sentindo seus bracinhos me envolverem cheios de confiança, fiquei divagando enquanto os céus explodiam em cores brilhantes.


Primeiro pensei: mas o que é mesmo que se festeja tanto? Um ano que termina, outro que começa. Isso não é nada demais... E de repente me dei conta de um fato: é demais, sim. Nossa! Eu tinha visto na mesma tarde um filme com a família, sobre dinossauros. Uma das cenas era uma chuva de meteoros. Meteoros que deram fim à era dos gigantescos animais que habitaram o planeta outrora.

Lembrei que olhei para o meu marido disse: “Isso pode acontecer de novo, a qualquer momento, não é?” Ele concordou. E achei mesmo um milagre estarmos aqui! Virar um ano é mais um ano que não colidimos com uma estrela, um cometa, seja o que for. E um ano que não sucumbimos às vicissitudes que vira e mexe carregam alguém do nosso convívio.

A vida não é mesmo um milagre? Uma maravilha? Uma fantástica criação? Por que esquecemos de nos deslumbrar com tudo? Porque nos acostumamos, decerto.

Estamos tão acostumados com tudo, que paramos de nos surpreender. E esquecemos de valorizar o que desfrutamos e que, se pensássemos, descobriríamos ser fenômenos fantásticos!

Eu ter filhos não é fabuloso? E você me ler agora não é incrível? Olha que especial estarmos nos encontrando aqui, através desta tela, onde você me lê? Aliás, olha que coisa formidável este conjunto de letras fazerem sentido quando você passa sobre elas a sua vista! Sinta agora que o ar está dentro do seu organismo e que todo ele funciona, automaticamente, numa sinfonia espetacular de órgãos, músculos, células!

Ora, mais um ano é um ano a mais para nos deslumbrarmos. Novas descobertas, novas percepções que virão. Felicidade. Alegria de aprender, como a criança que se escandaliza com o barulho de uma máquina de lavar...

Não deixemos mais um ano passar como se fosse a coisa mais simples da vida. Não é.

Façamos deste ano, portanto, um feliz ano novo!!!

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Sobre as Metáforas do Nascimento do Cristo *


As narrativas sobre o nascimento do Cristo, contidas nos evangelhos de Mateus e Lucas, não podem ser tomadas historicamente, sem desafiarem a razão, como descrições de fatos reais. Todos sabemos da impossibilidade de uma virgem conceber um filho, exceto no caso improvável de haver recebido – sem penetração – o esperma de um homem. Mas está escrito:

A origem de Jesus Cristo foi assim: Maria, sua mãe, comprometida em casamento com José, antes que coabitassem, achou-se grávida pelo Espírito Santo. José, seu esposo, sendo justo e não querendo denunciá-la publicamente, resolveu repudiá-la em segredo. E, projetando ele isto, eis que lhe apareceu um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de David, não temas receber a Maria, tua mulher, porque o que nela está gerado é do Espírito Santo; e dará à luz um filho e o chamarás Jesus; porque ele salvará o seu povo dos seus pecados. E José, despertando do sono, fez como o anjo do Senhor lhe ordenara, e recebeu a sua mulher; e não a conheceu até que deu à luz seu filho, o primogênito; e pôs-lhe por nome Jesus. (Mateus, 1: 18-21, 24-25)

Tomando em paralelo os mitos de outros povos, tais como o nascimento de Krishna, também de uma virgem, ou ainda o nascimento de alguns heróis gregos, como Perseu, de uma mãe fertilizada pelo próprio Zeus, disfarçado em chuva de ouro, concluímos sem dificuldade que é mais coerente assumir que esta versão do nascimento do messias está repleta de fortes componentes mitológicos.
Contudo, não descartamos as análises históricas. Simplesmente nos detemos aqui numa leitura simbólica, por acreditarmos que, num nível pessoal, a interpretação das metáforas evangélicas pode nos acrescentar muito mais do que fazermos intermináveis divagações a respeito de sua veracidade. (...)

A VIRGEM
O nascimento virginal de Jesus é uma espécie de poesia religiosa. Nascer de uma virgem pode ser compreendido como nascer da pureza, da simplicidade. O messias nasce do feminino intocado, na simplicidade de uma estrebaria, ou seja, no contato com as mais primitivas experiências interiores.
Que messias? Aquele “que salvará seu povo dos seus pecados”.

O MESSIAS
Todos esperamos um messias, uma salvação para nossos pecados, a libertação de nossas fraquezas, a felicidade plena. Ao afirmar que o messias nasce da virgem, estamos entendendo que este estado de realização pessoal, de plenitude, exige um contato com a intimidade, com a “grande mãe”, ou seja, com o arquétipo universal do feminino, que inclui a criatividade e a inspiração, tudo o que amamentamos e acalentamos, tudo o que impele à comunhão e à proximidade com o outro, toda fusão que efetivamos.

O ESPÍRITO SANTO
O messias nasce da união da virgem pura com o espírito santo, ou seja, da captação, através do insight, de conteúdos internos conscientizados. O espírito santo simboliza a mensagem do Self, seu comunicado compreendido, sua voz virginal ouvida. O Self contem todo o potencial para a personalidade, a semente de todo o conhecimento que se possa manifestar já está nele, tudo o que podemos ser e realizar.  (...)

JOSÉ
O messias não nasce do pai humano, do arquétipo masculino, porque este significa a intelectualidade desvinculada do corpo. Jesus diz: “Graças te dou, meu Pai, por me haveres enviado aos simples e pequeninos, e não aos doutos e prudentes” . Mas ele precisa do pai, Jesus é criado por José, que o “adota” e inclusive o salva, mais tarde, da perseguição de Herodes. Herodes é a personificação do misoneísmo, o medo do novo, o apego às aparências.
A vinda do messias não dispensa o masculino José, pois está em contato com ele, apenas não é dele. Quem quer se auto-realizar apenas com reflexões intelectuais ou racionalizações, longe do contato com o mundo e com o outro, está no caminho errado. A auto-realização ou individuação exige algo além de mentalizações, exige um “sentir”, um “intuir”, um contato com a própria espiritualidade, com o que não cabe nas palavras, mas transcende-as. Porém o masculino, a razão, como José, é necessária, não para criar, mas para sustentar a auto-realização. Se José rejeitar Maria, o messias não poderá crescer, não estará protegido. A importância de José é uma metáfora da importância da compreensão lógica ou reflexão intelectual.
A primeira reação da reflexão intelectual é rejeitar o insight, como faz José com Jesus. Mas se ela se abrir ao que lhe é transcendente, ao anjo que vem em sonho, ao desconhecido, reconhecerá que nem tudo o que não pode ser explicado deve ser rejeitado, pois, como conclui Hamlet, na obra de Shakespeare: “Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”.
(...)
Um exemplo desta espécie de auto-engano é a atitude de determinados cristãos. Eles falam de Jesus com exaltado reconhecimento de sua grandeza, mas além do que falam, na ação diária, agem como se não conhecessem Jesus, sendo impiedosos com as falhas alheias, cruéis no julgamento do outro e inflexíveis em suas opiniões. É que seus cérebros não estão totalmente conectados com seus corações. Sabem, mas não agem. São como José antes de sonhar com o anjo da verdade, ainda sem contato com a sabedoria que vem de dentro, do Self. Quando ele recebe a visita do anjo, ele aceita Maria. Da mesma forma, quando a razão recebe a visita da intuição, o ser está pronto para aceitar o filho de Deus, ou seja, a auto-realização.
Entrar em contato com a sabedoria que vem de dentro, na forma de intuição, é entrar em contato com a parte de si mesmo que ainda não se conhece. É, portanto, conhecer-se. Conhecer tudo o que temos potencialmente dentro de nós, que tanto pode ser as nossas más tendências, como as boas. Conhecer-se não é desprezar-se. Pelo contrário, o verdadeiro auto-conhecimento conduz ao amor, inclusive o amor por nós mesmos.
(...)

OS REIS E SEUS PRESENTES
A visita dos magos, também chamados reis, é um símbolo da vida que reconhece o messias, oferecendo-lhes presentes. Quanto aos presentes, ouro, incenso e mirra, (...), eles estão permeados de simbolismo arquetípico.
O ouro é sem dúvida um presente de rei para rei. (...) O ouro é belo e resistente, além de possuir grande valor. São atributos que se esperam de um líder, e que certamente não faltaram em Jesus. Também o nascimento do nosso messias interior culmina num enriquecimento pessoal.
O incenso é produzido a partir da mistura de essências aromáticas de plantas e especiarias. Comumente queimado em cerimônias religiosas, sua fumaça, que sobe suavemente, pode até simbolizar as orações que se elevam a Deus nos templos. Parece, então, que este segundo presente sugere a natureza divina do menino recém-nascido. Também a natureza divina de nossa auto-realização, quando nos religamos ao Self, num processo que Jung chamou de individuação.
A mirra, enfim, por causa do seu perfume, era usada para embalsamar corpos. Resina tirada de uma pequena árvore oriental, servia também como remédio de efeito calmante. É possível relacioná-la simbolicamente com o caráter da missão do Cristo, de sofrimento e imortalidade, ao mesmo tempo. É o que acontece quando descobrimos o nosso messias: sofremos, mas também superamos o medo da morte, o que nos remete a Paulo: “E tragada foi a morte na vitória” . Perder o medo da morte é não ter medo do fim, é desapegar-se, é acreditar no que vem depois, é confiar na sabedoria da vida. Significa viver com tranqüilidade, momento por momento, intensamente. Existirá maior conquista?
Os presentes revelam, pois, que o messias é, ao mesmo tempo, rei, sacerdote e mártir. Podemos personificá-lo em Jesus, como grande exemplo que foi, mas podemos entender também que o nascimento do messias é o surgimento de algo que uns ainda esperam e outros já testemunharam. O salvador está para nascer em alguns corações, mas há outros que já o receberam.

O DESAFIO
Deixar nascer o enviado celeste, receber o salvador em nós mesmos é um desafio que continua atual.
Quantos de nós ainda se encontram dominados não por Roma, como o povo judeu que conheceu o Cristo, mas pelo poder da fortuna? Quantos paralisados na hipocrisia, como os fariseus? Quantos ainda doentes, sem procurar a cura? Quantos cegos para as verdades interiores? Quantos mudos? Quantos surdos?
E você? Ainda espera o messias? Já se considera salvo? Mas salvo de quê? Das falsas crenças, dos falsos valores, das ilusões!
Você acredita num salvador poderoso e sanguinário ou num messias simples e manso? Você acredita que a felicidade vem de onde?
Estas são perguntas boas para refletirmos e reconhecermos em que ponto estamos do nosso desenvolvimento pessoal. E se descobrirmos que ainda estamos esperando o salvador, é bom entrarmos em nós mesmos e abrirmos a estrebaria de nossos corações para José e Maria, que ainda ignorados, do lado de fora, esperam ser acolhidos...
 
*Extraído do livro Metáforas do Cristo, de minha autoria.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

VELHICE

Estava certa vez ao lado de uma jovem, que folheava uma revista repleta de fotos de pessoas famosas. De repente, apontando para uma artista muito bonita, ela exclamou: “Olha, Carol! Nem parece que tem cinqüenta anos!” Observei a imagem da mulher e fiquei imaginando se dava para achar que tinha vinte, trinta ou quarenta anos. Não, ela tinha mesmo cara de cinqüenta. Só que era um rosto bonito, de cabelo arrumado, maquiagem caprichada e uma pitada de Photoshop. Mas uma mulher de cinqüenta, sem dúvida.


Foi então que percebi que o que surpreendia aquela moça era a mulher ser bonita. Como se não fosse possível ser bonita aos cinqüenta. Como se tratasse de algo fantástico, digno de nota: “Ela é bonita apesar da idade.”

Ocorre que na nossa sociedade, ser bonita é sinônimo de juventude. Velhice é coisa feia, da qual as pessoas se envergonham, a ponto de esconderem a idade, como quem esconde um crime, a sete chaves. Fico me perguntando qual a explicação disso e acho que resulta de nossa pouca reflexão acerca da vida. Aprimoramo-nos bastante em prolongar a existência, mas não nos preparamos para o que é inerente a viver. E viver inclui envelhecer.

Associamos velhice à decadência, mas não precisa ser assim. O que decai, em força e energia, é o corpo. A mente, com o tempo, deveria apenas melhorar! Porque o tempo traz a maturidade.

Contudo os velhos caducam, dirão alguns. E eu questiono se sua caduquice não se deve muito ao fato de não saberem o que fazer, não terem se preparado para esta etapa da vida? Pois não nos preparamos para envelhecer, já que todo nosso esforço consiste em evitar a velhice, as rugas, as limitações físicas da idade. Fala-se em lazer para os idosos, em terapia ocupacional, porque acredita-se que eles não têm muitas opções do que fazer depois da aposentadoria e de não poderem mais correr e se enfeitar como os jovens.

Porém viver é mais que fazer, é SER. E para ser, não tem limites. A beleza de ser quem se é não se estampa nas folhas das revistas, mas no coração de quem vive, na intimidade de cada um, na alma que jamais envelhece.

sábado, 10 de outubro de 2009

DEUS


Às vezes fico pensando sobre a dureza da vida. Nosso mundo tem muitas coisas bonitas, mas há também muita dor... Vira e mexe a gente tem acesso a uma dessas dores da vida, seja no vizinho, no noticiário da televisão, seja em nossa própria história. É terrível. E ficamos desolados, sem entender muito a razão de tudo isso, assustados com nossa fragilidade, nossa impotência.


Então surge a idéia de Deus, que é no fundo uma esperança de que nada seja por acaso, de que no fim exista um por quê. Assim, a vida fica menos dura, por causa da expectativa de um porvir, o depois da morte que automaticamente se associa à crença num Princípio Inteligente, Perfeito, que nada faz por acaso. Só Deus oferece significado à fragilidade humana, na promessa de uma recompensa futura que dá sentido às dores do presente.

Acreditar em Deus é um alento, uma necessidade, mas o fato de ser tão consoladora sua existência, nos leva paradoxalmente a questionar se nós o criamos, ao invés d’Ele nos ter criado.

Na verdade, não há como saber se há verdadeiramente um Deus. Ninguém pode prová-lo, exceto através de conjecturas. Analogamente, é impossível provar que não existe. Significa que, no fim das contas, crer ou não em um Deus, é sempre uma questão de fé.

Porém fico aqui refletindo, que é também uma questão de sabedoria. Que vale mais à pena? Se acredito em Deus, vivo minha vidinha com seus altos e baixos sustentada na esperança d’Ele. Até mesmo a morte, drama inevitável que se impõe a todos nós, é minimizada pela convicção de que existe uma vida além dela, onde Deus me espera. Se eu morrer, e estiver certa, olharei para vida deixada na Terra e me felicitarei por ter acreditado, por ter estado certa. Mas se eu morrer e nada mais existir, não saberei, porque serei nada. Nem para dizer: “Eu acreditei numa tolice!”, estarei ali. Terei morrido feliz, crendo.

Se eu em nada acreditar, ao morrer, se estiver certa, não viverei para experimentar a grata satisfação de constatar a autenticidade de minha descrença. E se estiver errada e a vida continuar, só poderei lamentar ter vivido na secura da descrença durante tanto tempo. Terei enfim vivido infeliz, descrendo.

Portanto, se crer em Deus e na Vida Eterna é uma questão de fé, tanto quanto não crer, concluo que é preferível, mais sábio, mais tranqüilo crer. Portanto, me parece que ao contrário do que se pensa, o homem de fé é muito mais esperto!